jueves, 14 de julio de 2011

Lenda árabe sobre a criação !!! texto de Paulo Coelho

Assim que terminou de construir o mundo, um dos anjos advertiu o Todo-Poderoso que esquecera de colocar areia na Terra; grave defeito, se considerarmos que os seres humanos estariam privados para sempre de caminhar junto aos mares, massageando seus pés cansados e sentindo o contacto com o chão.

Além disso, o fundo dos rios seria sempre ríspido e pedregoso, os arquitetos não poderiam usar um material indispensável, as pegadas dos namorados seriam invisíveis; disposto a remediar seu esquecimento, Deus enviou o Arcanjo Gabriel com uma enorme bolsa, para que derramasse areia em todos os lugares que fosse necessário.

Gabriel fez as praias, o leito dos rios, e quando voltava para o céu trazendo o material que havia sobrado, o Inimigo, sempre atento, sempre disposto a estragar a obra do Todo-Poderoso, conseguiu fazer um furo na bolsa, que arrebentou, derramando todo o seu conteúdo.

Isso aconteceu no lugar que é hoje a Arábia, e quase toda a região se transformou num imenso deserto.

Gabriel, desolado, foi pedir desculpas ao Senhor, por ter deixado que o Inimigo se aproximasse sem ser visto.

E Deus, em Sua infinita sabedoria, resolveu recompensar o povo árabe pelo erro involuntário do seu mensageiro.

Criou para eles um céu cheio de estrelas, como não existe em nenhum outro lugar do mundo, para que sempre olhassem para o alto.

Criou o turbante que, debaixo do sol do deserto, é muito mais valioso que uma coroa.

Criou a tenda, permitindo que as pessoas se movessem de um lugar para o outro, sempre tendo novas paisagens ao redor, e sem as obrigações aborrecidas de manutenção de palácios.

Ensinou o povo a forjar o melhor aço para a espada.

Criou o camelo.

Desenvolveu a melhor raça de cavalos.

E lhes deu algo mais precioso que estas e todas as outras coisas juntas: a palavra, o verdadeiro ouro dos árabes.

Enquanto os outros povos modelavam os metais e as pedras, os povos da Arábia aprendiam a modelar o verbo.

Ali, o poeta passou a ser sacerdote, juiz, médico, chefe dos beduínos.

Seus versos possuem poder: podem trazer alegria, tristeza, saudade.

Podem desencadear a vingança e a guerra, unir os amantes, reproduzir o canto dos pássaros.

Os erros de Deus, como os de grandes artistas, ou dos verdadeiros enamorados, desencadeiam tantas compensações felizes que, às vezes vale a pena desejá-los.

(Texto de Paulo Coelho)

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